quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O Mistério de Minas

Senti um arrepio frio percorrer meu corpo, de cima a baixo.
“É Minas Gerais, ninguém sabe o que é exatamente, mas ninguém pode negar o que acontece nesse misterioso estado... Só de pensar em minas frias e escuras, fechadas, onde um dia mineiros já trabalharam dia e noite, incansavelmente, procurando o que iria sustentar suas famílias, e quantos morreram de forma deprimente, eu já tenho vontade de sair correndo”.
As palavras da filha de Negra-Mãe ecoavam por minha cabeça. Com certeza fazia total sentindo.
O pior era que os acontecimentos ocorriam de noite, nos piores horários. E cá estou eu, andando por essas malditas estradas esburacadas de mão única, em plena sexta-feira treze, às onze da noite. John, o americano que até mês passado se dizia cético, ao meu lado, estava arrepiado. Não sabia se de frio ou de medo. Talvez dos dois, assim como eu.

Afterlife


Parte I

 Suspirei pesadamente e recostei a cabeça na parede. Cutuquei Carolina pelo ombro e ela se virou delicadamente para trás, encostando-se à parede e olhando para mim de rabo-de-olho. Carolina era minha melhor amiga desde que me conhecia por gente, ela era baixa e tinha grandes e belos cabelos castanhos, que davam destaque a seus olhos verdes.
 Muitas pessoas que eu conhecia estavam naquela sala. Desde pessoas que estudaram comigo no primário a pessoas que estudaram comigo naquele ano. Não muitas pessoas, apenas as que mais marcaram minha vida, ou então aquelas que faziam questão de marcar presença. Agora, o que fazíamos todos dentro da sala de aula número 10, em pleno sábado? Homenagem a uma aluna que morrera na semana.
 Bom, pelo menos para todos naquela sala, a aluna estava morta. Mas para mim e para Carol, ela não estava. A aluna era eu.
 Agora você se pergunta como todos achavam que eu estava morta, a coordenadora da minha atual escola fazia um discurso sobre como eu era uma boa pessoa enquanto eu estava na mesma sala que eles? Bom, eu estava disfarçada. Eu havia cortado o cabelo e estava usando uma blusa de moletom dois números maior e com um capuz imenso, fora o óculos de sol. Como nem todos ali se conheciam, e não sabiam a relação que tinham comigo, para eles, eu era apenas alguém de alguma escola que foi realmente próxima à... Mim.

Angels 02

Uma luz forte surgiu ao seu redor, descendo diretamente dos céus, abrindo espaço entre as lindas nuvens brancas, que pareciam de algodão. A luz foi se fortificando de tal maneira, que fui obrigada a colocar a mão nos olhos, para não ficar com algum futuro problema de visão.
 Depois de alguns segundos, percebi que a luz havia diminuído de intensidade e retirei a mão dos olhos. Abri-os delicadamente, pousando-os sobre aquela figura magnífica.
 Sempre achei que ele possuía uma feição angelical. Seus olhos num tom escuro, bem próximo ao preto me lembravam duma linda noite estrelada. Seu cabelo era castanho escuro, mas quando o sol batia, dava um toque chocolate ao mesmo. Sua pele sempre macia me atraía intensa e constantemente.
 A diferença era que agora, além de estar usando apenas uma bermuda xadrez, ele possuía asas maravilhosas. Elas saiam de suas costas, e se estendiam na lateral de seu corpo. Suas asas brancas pareciam de veludo. Fiquei observando-o fixamente, e quando ele percebeu, mexeu um pouco as asas, envergonhado talvez.
Vergonha...
Como um anjo magnífico como ele, com a habilidade de voar pelos céus, ser livre, sentir o ar batendo em seu rosto na liberdade de voar, poderia sentir vergonha de... Um ser à base de carbono, totalmente dependente da terra para se locomover?

Angels

Coloquei as mãos no rosto, protegendo meus olhos da intensa luz que tomou conta do local. Conforme percebi que a luz ia diminuindo, fui retirando as mãos do rosto e abrindo os olhos lentamente.
Quando a luz finalmente diminui e meu olho conseguiu captar a imagem do que havia na minha frente, meu queixo foi ao chão.
Um ser muito parecido com um homem, estava a minha frente. Seria igual, se não fosse o fato de que este era extremamente lindo e possuia duas asas grandes e negras, saindo de suas costas. Vestia um tipo de calça, e estava sem camisa, descalço. Ele também era bem mais alto do que um homem normal.
Fiquei admirando o anjo à minha frente. Ele possuia uma fina camada de luz ao seu redor, sendo mais intensa em sua cabeça, o que não permitia que eu olhasse bem em seu rosto. O máximo que conseguia ver eram seus grandes olhos castanhos, com um brilho especial. Ele se virou lentamente, graciosamente. Andava em minha direção, e conforme ia chegando perto, seu tamanho diminuia. Sua pele parecia extremamente macia, e parecia atrair minha mão para tocá-la. Fechei a mesma, segurando o impulso. Uma música suave tomou conta do lugar, e a última coisa que pude ver foram seus olhos castanhos e um sorriso, mais nada.
Acordei e encarei o teto. Havia sido um sonho, eu realmente não havia visto um anjo. Tentei lembrar de seu rosto. Nada. Apenas grandes olhos castanhos e um sorriso misterioso com um toque de graça.
Me revirei na cama, deitando de lado. Olhei quem estava deitado na cama do lado. Eu ainda estava no hospital, pois não havia me recuperado totalmente do acidente. Um homem de cabelos pretos, que por um instante eu achei conhecer, dormia na cama do lado. Fiquei o encarando, até que ele abrisse os olhos e eu me arrepiasse. Quando ele os abriu, vi algo que havia visto mais cedo: dois olhos grandes e castanhos com um brilho especial. O fitei assustada, ele me encarou e sorriu. Um sorriso misterioso com um toque de graça.

The Wolf

Pisquei lentamente, enquanto ele se sentava ao meu lado. Então, ele havia descoberto?
Senti sua mão quente tocar meu ombro nu, graças a blusa de um ombro só, enquanto seu dedo fazia pequenos círculos de carinho. Olhei-o e minha franja caiu sobre meu olho. Sua outra mão a colocou lentamente para trás, enquanto eu encarava seus profundos olhos azuis. Abri a boca para falar algo, mas não consegui.
Sinceramente, não achei que fosse reagir dessa maneira. Até porque, de qualquer maneira, apesar de ter a esperança e ficar dizendo que iria dar certo, eu não cheguei a pensar nas consequências e como realmente seria. Sam provavelmente percebeu que eu não tinha refletido sobre o assunto, simplesmente pelo olhar que me lançou, de preocupação.
- Você duvidou da minha capacidade? - brincou, tentando me fazer relaxar.
- Você sabe que não é isso... Eu só... Acho que não refleti direito sobre isso antes, e agora... É tão de repente. Tenho medo, Sam - voltei a encarar seus belos olhos.
- Emily... Você sabe que não precisa responder agora. Mas por você já ter sido normal... Achei que fosse ser mais fácil.
- Acontece que eu não quero te abandonar, Sam. Apesar de querer muito voltar ao normal, eu te amo demais, e tenho medo de acontecer algo com você e eu não poder fazer nada por ser... Normal. - Suspirei e abaixei a cabeça.
Senti sua mão subir até meu queixo, e levantá-lo levemente. Seus lábios tocaram ao meu de maneira suave e doce. Sentia o calor dentro de mim, o efeito que só ele tinha.
Antes que eu pudesse ao menos pensar, ouvi gritos.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Dado Azul

Passou a mão esterilizada pela testa. Respirou fundo.
- Seis – repetiu vagarosamente.
Jogou o dado novamente. Seis. Arqueou a sobrancelha e um pequeno sorriso cheio de intenções surgiu em seu rosto. Não havia coincidências para ele.
Colocou seu grande casaco preto e andou até seu carro, sentindo um embrulho no estômago de ansiedade. Gostaria que o teletransporte existisse apenas para que ele pudesse chegar mais rápido ao seu destino e saciar seu desejo. Sua fome.
A chuva caía pesadamente na grande cidade, contudo, de longe isso o faria andar mais rápido. Pelo contrário, ele andava lentamente, apenas para poder sentir cada gosta tocando sua pele e sua roupa. A água dos céus limpava sua alma, sua culpa, seu remorso. Riu de leve.
Remorso? Riu alto dessa vez e um homem que passava ao seu lado o olhou estranhamente. Nunca sentira remorso! Nunca sentiria. Sentia apenas prazer e satisfação. Mas muito, muito prazer!
Entrou no carro, ligou o rádio pra ouvir as notícias e foi em direção ao shopping.
“... e a polícia disse que continua sem maiores pistas sobre o Assassino do Shopping. A falta de padrão entre as vítimas não ajuda a polícia. A família da última vítima anunciou que fará um velório com o caixão vazio essa semana ainda.” – ouvia o locutor do rádio anunciar com o sotaque carregado.
Chegando ao shopping, estacionou o carro de maneira que pudesse ficar de olho naquela entrada nem tão movimentada. Desligou o rádio que agora falava sobre a bolsa de valores e tirou o dado de dentro do bolso. Virou-o até achar o número seis e acariciou o grande dado azul e branco. De fundo, o barulho da chuva caindo sobre o capô do carro o acalmava. Remexeu-se no banco, ainda ansioso. Coçou a cabeça. O dado azul que fora presente de seu irmão estava sempre com ele em seu bolso.

Conto 01

Peguei o alicate e comecei a apertar. Um barulho animal saia da garganta do ser em minha frente; só não era mais alto por causa da quantidade de pano que descia garganta abaixo. As mãos tentavam se libertar, mas estavam muito bem presas com nós de um verdadeiro soldado americano.
O dedo indicador finalmente foi ao chão, se juntar à poça de sangue já formada.
O corpo já não mais fazia barulho, desmaiado em minha frente.
Fui para o dedo anelar e voltei a apertar e torcer com o grande alicate. Sentir sua carne ser amassada e seus ossos se contorcendo conforme o alicate era virado soava como uma grande orquestra sinfônica para mim. Aquela sensação maravilhosa que me acalmava e me deixava melhor. Me fazia respirar melhor.
O corpo ainda se contorcia inconscientemente.
Eu já estava naquilo havia algumas horas... A poça de sangue apenas aumentava e eu sabia que não teria muito tempo.
Era hora.
Liguei a serra elétrica e cortei-o em cinco partes: pernas, braços e tronco com a cabeça. Sentir toda a carne passando pela serra me lembrava de quando eu ia caçar com meu pai e cortávamos a deliciosa carne de veado para jantarmos. Era uma sensação maravilhosa! O sangue quente respingava em meu rosto. Lambi.
Mas a brincadeira precisava acabar. Joguei os braços e pernas no triturador da velha pia do cômodo e pendurei o corpo já sem vida no ventilador.
Toquei o interruptor e elevei ao máximo.
Sai da sala fechando a porta. Me limpei, tirei a roupa e a incinerei. Fiz uma ligação muda para a polícia do fixo da casa e sai caminhando lentamente pela floresta. Isso deixaria o Doutor louco!
Sorri.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Red-Eyes

Caminhando lentamente até a beirada da pia, bati a mão na parede ao meu lado até encontrar o interruptor. A fraca luz de cima do espelho se acendeu, mostrando sombras pelo banheiro e iluminando somente um pequeno pedaço do local.
Encarei meu reflexo no espelho, os longos cabelos castanhos jogados para trás, com um cacho teimoso tocando minha bochecha. Meus olhos castanhos pareciam negros à fraca luz do banheiro. Aproximei-me lentamente do espelho e, então, toda a órbita começou a ficar levemente vermelha, mostrando os pequenos vasos que por ali passavam, mas quanto mais me aproximava do espelho, mais intensa a cor vermelha se tornava, até que a poucos milímetros de tocar o nariz no espelho, meu olho se tornou completamente vermelho. Onde antes se encontravam olhos negros banhados em branco, agora havia apenas uma imensidão de vermelho-sangue. Dei um pulo para trás e meus olhos voltaram ao normal. Aproximei-me novamente; o mesmo aconteceu.
E então eu soube.
Como se alguém houvesse plantado aquela ideia no fundo do meu subconsciente, para que quando eu acordasse pensasse que eu realmente queria e acreditava em tal. Mas ao mesmo tempo, eu sabia que aquela ideia não estava em mim. Estava nele.
Havia um demônio dentro de mim, dividindo espaço de um corpo mortal, já que o seu havia se dizimado há séculos. Os olhos eram a prova e só poderiam ser percebidos quando vistos de muito perto. Éramos como num livro que eu havia lido.
Não.
Eu poderia ter certeza que fora eu quem lera o livro, mas, assim como sabia que tinha alguém dentro de mim e sabia que não tinha chance de mudar qualquer coisa, eu soube que eu não havia lido De Corpo e Alma em 1570, à luz de velas debaixo de um cobertor.


Escrevi esse no fim do dia 16/01/12, porque ia contar o sonho pra uma amiga e de repente me veio uma luz (ah, santa luz da criatividade) e escrevi esse conto! Sou péssima para nome dos contos, get used to it. Não estranhei se não tiver nome, aliás, bem normal kekeke. Sim, eu sonhei com isso e De Corpo e Alma existe. É um livro maravilhoso do Willian Nascimento, visitem o Hangover e conheçam. :3