quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Afterlife


Parte I

 Suspirei pesadamente e recostei a cabeça na parede. Cutuquei Carolina pelo ombro e ela se virou delicadamente para trás, encostando-se à parede e olhando para mim de rabo-de-olho. Carolina era minha melhor amiga desde que me conhecia por gente, ela era baixa e tinha grandes e belos cabelos castanhos, que davam destaque a seus olhos verdes.
 Muitas pessoas que eu conhecia estavam naquela sala. Desde pessoas que estudaram comigo no primário a pessoas que estudaram comigo naquele ano. Não muitas pessoas, apenas as que mais marcaram minha vida, ou então aquelas que faziam questão de marcar presença. Agora, o que fazíamos todos dentro da sala de aula número 10, em pleno sábado? Homenagem a uma aluna que morrera na semana.
 Bom, pelo menos para todos naquela sala, a aluna estava morta. Mas para mim e para Carol, ela não estava. A aluna era eu.
 Agora você se pergunta como todos achavam que eu estava morta, a coordenadora da minha atual escola fazia um discurso sobre como eu era uma boa pessoa enquanto eu estava na mesma sala que eles? Bom, eu estava disfarçada. Eu havia cortado o cabelo e estava usando uma blusa de moletom dois números maior e com um capuz imenso, fora o óculos de sol. Como nem todos ali se conheciam, e não sabiam a relação que tinham comigo, para eles, eu era apenas alguém de alguma escola que foi realmente próxima à... Mim.
- Você acha que vai demorar muito? Não quero ficar marcando aqui... Se alguém me reconhecer, já era – eu disse sussurrando, me aproximando de Carol, para que ela me ouvisse melhor.
- Pelo menos uma meia hora... Vai ao banheiro, dê uma volta, como se ficar aqui olhando para as fotos estivesse lhe fazendo mal – ela sussurrou de volta, ainda sem olhar para mim, como se para não perceberem que estávamos conversando.
 Olhei para frente. A coordenadora falava tristemente, olhando para baixo, como se sentisse pela perda de uma ótima aluna. Ok, não ótima, mas boa. Na lousa, muitas fotos estavam coladas e mensagens de amizade escritas. Será que só nessas horas que percebemos quem realmente se importa conosco e na vida de quem fizemos a diferença? Pisquei fortemente, sentindo dor de cabeça. Acenei com a cabeça para Carol e saí da sala, rumando ao banheiro.
 No corredor, evitei ficar olhando para as pessoas que passavam, então andei rapidamente mantendo meus olhos fixos no chão. Chegando ao banheiro, certifiquei-me de que todos os boxes estavam vazios e finalmente tirei o capuz, suspirando aliviada ao sentir um leve vento bater em minha nuca. Olhei-me no espelho, mais especificamente, olhei nos olhos de meu reflexo. Era possível ver que eu estava totalmente exausta, os últimos dias foram muito cansativos, e eu mal lembrava o por quê.  Todas aquelas pessoas na sala 10... Tantas pessoas que fizeram parte da minha vida, que fizeram a diferença. Pessoas que foram legais ou foram filhas-da-puta comigo, não importa, em algum momento, todos que estavam ali fizeram a diferença, e se tem algo que eu não esqueço é quem me fez mal. Dizem que guardar mágoa no coração faz mal, por isso não devemos fazê-lo... Mas bem, dizer é uma coisa, fazer é outra totalmente diferente.
 Mas uma pessoa em especial que não estava ali se matinha fixa em minha cabeça o tempo todo... Arthur. Lembro que antes de toda essa confusão começar, nós havíamos terminado o namoro. Algo envolvendo mentiras e coisas do tipo ‘eu não quero te machucar’. O maior problema é que eu estava tão confusa, que até minhas lembranças estavam confusas, então eu não sabia diferenciar em que ponto nós terminamos, em que ponto a confusão começou, e como ela foi parar onde parou: eu fingindo minha própria morte.
 Voltei meu foco ao reflexo de meu olho no espelho, e percebi uma lágrima escorrendo. Eu era fraca, mesmo. Eu ainda amava aquele idiota mentiroso, apesar de tudo (seja lá qual for esse tudo, que ainda está confuso e perdido em minha mente). E eu amava demais. A única pessoa que eu já amara intensamente, que eu dei tudo de mim... Talvez até mesmo a última que eu amaria. Arthur. Ele não precisava se esforçar, só bastava um olhar.
Limpei a lágrima teimosa que insistia em cair com uma mão e me virei para sair do banheiro. Assim que o fiz, esbarrei em uma garota, o que a fez derrubar o RG e mais alguma outra coisa no chão. Quando me encostei em seu RG para pegá-lo, a capa do plástico se desfez e descolou, soltando o papel de dentro. Ela olhou assustada para o papel, e o pegou.
- Desculpe-me! – eu disse talvez até mais assustada que ela. Só ouvi a garota resmungar algo como ‘merda de vida’ e entrar em um dos boxes do banheiro. Olhei para baixo e vi uma foto. Era Runna e eu. Runna foi uma garota que estudou comigo durante muitos anos... Havia momentos que eu não sabia diferenciar se ela era do tipo realmente amiga ou falsa... Mas naquela nossa foto, tirada antes da formatura, havia várias coisas escritas em branquinho em volta da foto, a qual estava até plastificada.
 Havia coisas escritas como ‘ótima amiga!’ ‘te amo muito’ e corações... Aquilo realmente me espantava. Peguei a foto, coloquei o capuz e comecei a caminhar até a sala 10. Novamente, esbarrei em alguém e deixei a foto cair.
- Eu realmente preciso prestar mais atenção por onde ando – ouvi a pessoa resmungar, como se falasse sozinha.
 Olhei para a pessoa e era Cláudia, que estudou aquele mesmo ano comigo. Sussurrei um ‘desculpe-me’ realmente baixo, que acho que ela ignorou e corri para a sala, sentando-me em meu lugar. Carolina me olhou com uma cara de brava, como se soubesse que eu tinha feito merda. Minutos depois, Cláudia entrou na sala usando o capuz da jaqueta e com a mão esquerda coberta pela manga no rosto, o tampando. Ela foi até a lousa e depositou cuidadosamente algo ali. Forcei os olhos e percebi que era minha foto com Runna. Prendi a respiração. Se eu fosse pega... Eu não queria. Não queria magoar aquelas pessoas. Todos choravam por mim, achando que eu estava morta, quando na verdade eu não estava. Então, naquele momento, eu não queria ser pega apenas para não vê-los sofrer mais, e não vê-los me odiando.
Levantei-me rapidamente e Carolina levantou também. Saí da sala e nisso o sinal soou. Logo todos saíram vagarosamente da sala, e outras salas foram esvaziando também. Desci rapidamente as escadas da escola, evitando todos, bati levemente em um garoto na escada, mas ele não pareceu se incomodar com a minha presença. Fui até a quadra mais antiga da escola, que ficava no térreo, e sentei na arquibancada a céu aberto. Coloquei as duas mãos na cabeça. Que merda eu havia feito? Por que mesmo eu tinha fingido minha própria morte?
- Isa? ‘Tá tudo bem? – senti Carol sentar ao meu lado e olhei para ela. Havia muita dor em seus olhos. Neguei com a cabeça. Antes que eu pudesse falar o porquê, um grupinho de pessoas que estudou comigo naquele ano chegou e sentou em volta de nós. Carol me olhou apreensiva e voltei a olhar para baixo.
 Fiquei ouvindo o que eles falavam, até que ouvi aquela voz tão conhecida, e engoli a seco. Arthur. Levantei o rosto e vi-o se sentando ao lado de Carol. Ele se apoiou em seu ombro, e senti uma dor em meu coração. Levantei-me e comecei a me afastar, quando os ouvi começarem a conversar. Tudo que eu consegui ouvir foi ‘contar’ e ‘doença terminal’.


Parte II

 Arthur estava com uma doença terminal? E ele não havia me contado? Como ele foi capaz de... De não me contar?! Depois de tudo! Depois de tudo que passamos, ele fica doente e ainda não me conta? Agora já era tarde demais... Ele achava que eu estava morta, eu não estava; ele iria morrer e eu não podia fazer nada. Tudo porque, mais uma vez, ele foi cabeça-dura e idiota o suficiente para não me contar que estava doente! Que estava prestes a morrer! Tudo poderia ter sido diferente...
 A dor que eu sentia no coração era imensa... Eu sentia um misto de culpa, dor, compaixão, medo, raiva, amor... Eram muitos sentimentos acumulados, e simplesmente não tinha por onde sair. Meu estômago embrulhou, e eu senti uma queimação que começava na boca do estômago e ia até a minha garganta, como um arranhado intenso. Eu tinha vontade de sentar no chão e gritar de tanto chorar, tamanha era a dor que eu sentia. Aquele nó na garganta estava me deixando louca.
 Saí da escola, atravessei a rua e os observei... Arthur parecia tão saudável... Como seria possível? Abaixei a cabeça e comecei a caminhar, eu precisava sair dali. Antes de finalmente sair, olhei para Arthur. Ele olhou em minha direção, mas seu olhar era vazio, a única coisa que eu podia ver era dor. Ao mesmo tempo em que ele me olhava, era como se ele não me visse. E aquele olhar fazia com que minha dor se intensificasse. Me dobrei, tentando fazer meu estômago relaxar, como quando temos uma intensa cólica, mas não ajudou muito.
 Senti algo em meu pescoço e me virei rapidamente. A única coisa que consegui realmente ver foi uma sombra negra. Havia apenas um vulto preto atrás de mim. De repente, toda a dor se fora, e eu gelei. Tudo se transformara em puro medo, pânico. Ouvi uma risada sarcástica, provavelmente vinha do vulto.
- Ora, ora, Silva... Você foi capaz de fingir a própria morte, contudo foge da mesma? – a voz disse em um tom brincalhão, o que só serviu para me deixar mais em pânico. Corri, mas ao chegar à esquina, fui jogada contra a parede.
Olhei para Arthur, mas ele continuava imóvel ao lado de Carolina. Eu tentava gritar por seu nome, gritar por Carol, mas não conseguia. Eu estava quase sendo enforcada pelo vulto.
O vulto era como uma fumaça negra, que formava o vulto de uma pessoa. Algo que deveria ser o braço deste estava pressionando meu pescoço contra o muro, enquanto eu tentava falar qualquer coisa. A outra mão estava segurando meu ombro direito para trás, me mantendo totalmente presa ao muro. Fechei os olhos com força, enquanto empurrava o vulto para trás.

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 De repente, eu não estava mais sendo enforcada por nenhum vulto ou qualquer outro tipo de ser. Eu estava em um hospital... Um hospital que eu nunca estivera antes, mas que ao mesmo tempo eu sentia um toque familiar. Eu estava parada no corredor do hospital, e via vários médicos, enfermeiras e pessoas passando por ele, sem ao menos se darem conta de que eu estava ali. Olhei em volta, ninguém que eu conhecia. Como eu havia ido parar ali?
- Com licença, Doutor! – chamei por um médico que passava ao meu lado apressadamente, mas ele me ignorou. Olhei para o outro lado, e uma enfermeira passou por mim. – Senhora, com licença! – chamei e finalmente alguém deu atenção à minha existência naquele dia. Ela se virou, mas antes que eu pudesse abrir a boca parar falar, uma mão atravessou meu estômago, e senti apenas como se um vento forte tivesse passado por mim.  Levantei os braços, assustada com tal ato, arregalando os olhos. Mas o que...?
 Saí do meio do caminho, e fiquei olhando atordoada. Passei freneticamente a mão na frente da enfermeira que conversava com o senhor que me atravessou e só a vi arrepiar, como se eu tivesse feito algum tipo de vento, mais nada. Assustada, dei dois passos para trás, batendo na parede. O que estava acontecendo?
- Como se sente sendo ignorada pelo mundo? – ouvi a mesma voz do vulto vindo da minha direita, e virei-me rapidamente, encarando uma pessoa de sobretudo preto, com capuz, sendo impossível eu ver seu rosto.
- Quem é você?
- Ninguém realmente interessante... Na verdade, só fui convocado para lhe fazer lembrar, e lhe fazer finalizar a tarefa dessa vida.
 Oi? Finalizar? Tarefa dessa vida? A pessoa por baixo do capuz tinha cheirado cola ou o quê? Do que ele estava falando? Apesar de todas as dúvidas, meu estômago gelou, e por um instante senti meu coração parar.
- Você realmente não se lembra, não é? – fiz a melhor cara de interrogação possível, e o vulto encostou em minha mão. Senti um enjoo terrível. Fechei os olhos, engolindo qualquer coisa que queria voltar. Assim que me senti melhor, percebi que não estava mais no corredor onde a enfermeira e o senhor conversavam. – Olhe ao redor.
 Fiz o que a voz mandava, e percebi estar em uma ala mais isolada do hospital. Se o corredor anterior já me deixava com uma sensação de lembrança, esse me deixava mais ainda. Mas não era como uma lembrança boa. Comecei a andar pelo corredor, e o homem-vulto andava silenciosamente ao meu lado. Fui olhando as portas dos quartos, até parar em um com uma plaquinha ‘quarto 10’. Aquela porta... Me deixava com uma sensação extremamente estranha. Abri-a lentamente e entrei.
 O que encontrei deitado na cama, me deixou em choque.
- Você está se lembrando? – o homem ao meu lado perguntou, com um certo tom de doçura dessa vez. Apenas neguei com a cabeça. – Venha... – ele tocou minha mão novamente, e dessa vez, ao invés de sentir enjoo, senti uma onda de pensamentos e lembranças me invadir.
 Cada lembrança, cada pensamento me assombrava... Aquilo não poderia ser verdade, não, não podia!
- Não! Isso é mentira! Você está tentando me confundir! Você realmente acha que eu vou cair nessa sua conversa? O Arthur está doente! Ele em uma doença terminal e vai morrer, pode ser hoje, amanhã, daqui anos! Ou talvez nem morra, mas... Não! – senti lágrimas caindo de meu rosto, e a dor insuportável voltar. Meu coração parecia estar sendo esmagado.
- Você precisa aceitar que essa é a verdade... Se esforce... Você vai lembrar – o vulto disse em um tom carinhoso, dessa vez. Sentei-me em uma poltrona que havia no quarto e olhei para o corpo na cama... Não, não podia ser. Aquela era... Eu?
Capítulo 03
 O corpo debilitado deitado na cama tinha as mesmas feições que eu, mas realmente não parecia muito comigo. Estava totalmente sem cabelo e sobrancelhas. Estava com alguns pontos roxos na cabeça, um cateter no braço, um tubo de oxigênio e aparelhos medindo os batimentos cardíacos. O corpo parecia totalmente exausto, como se não aguentasse mais um segundo de vida.
Como era possível aquela ser eu? Eu estava aqui, bem, com o meu cabelo... Meu cabelo... Olhei para o homem de capa, fazendo a mesma pergunta para ele, apenas com o olhar. Ele colocou a mão no bolso e tirou um espelho de madeira de dentro do mesmo e esticou o braço, me entregando. Peguei delicadamente o espelho e o virei, vendo meu reflexo... eu estava exatamente igual ao corpo da cama. Como eu não havia percebido isso antes? Na escola... Merda! Na escola eu só prestei atenção nos meus olhos. Fixei meu olhar nos olhos do reflexo. Exatamente os mesmos. Olhos escuros extremamente cansados. Como se tudo o que quisessem fosse serem fechados.
- Mas se aquela sou eu... O que? – o pior pensamento passou por mim. Eu estava morta?
- Sim... Você realmente morreu; você não apenas fingiu sua morte por uma bobeira qualquer. Você realmente morreu. – continuei a olhar no espelho, tentando absorver tudo que ele havia dito. Eu estava morta? – Carolina só foi capaz de conversar com você, pois vocês eram muito próximas, e ela estava ao seu lado quando você veio para o outro lado.
 Lembrei-me dos olhares que Carol me lançava o tempo todo durante a homenagem... Olhares de dor, de pena, de... Saudade. Lembrei-me de Arthur. Quando ele me olhou, mas parecia que não me via. Ele realmente não me via... Mas... Por que terminamos, afinal? O que havia acontecido antes da doença, antes de tudo se complicar?
- Você não se lembrava de nada do que aconteceu, porque quando estava doente, recusava a acreditar que aquilo estava acontecendo, e se fazia de forte para não ver seus amigos chorando perto de você. O seu subconsciente acabou criando uma história totalmente diferente enquanto você dormia por causa dos remédios, para que você pudesse fugir do pesadelo que estava vivendo. Assim, quando morreu, as duas histórias, real e inventada, se confundiram e você acabou pegando a realidade pela metade. A doente era você, não Arthur. As pessoas não achavam que você era só mais um de luto, elas realmente não te viam. – eu tentava absorver tudo que ele falava, mas estava sendo extremamente difícil... Aceitar o fato de que eu estava morta.
- Mas então... Por que eu terminei com Arthur?
- Você só descobriu a doença quando já estava apresentando fortes sintomas, ou seja, quando já não havia volta. – conforme o homem-vulto falava, as memórias iam voltando. – Quando você descobriu sobre a doença, no início, não queria contar a ninguém, mas os sintomas foram ficando graves, os tratamentos para segurá-los não adiantava, e eles apareciam nos momentos mais inconvenientes. Cinema, escola e até mesmo no meio da rua. Todos começaram a questionar, foi então que você contou. Primeiramente à suas amigas, que começaram a chorar e ficar de luto com você ali, presente. Vendo a reação delas e pensando em Arthur, você não queria vê-lo como elas estavam, não queria vê-lo preso a uma pessoa doente. Ele, suas amigas... Todos tão jovens para se prender a alguém que dava tanto trabalho!
 Eu me lembrava da cena de quando contei às meninas que estava doente. Elas começaram a chorar, falar coisas que eu mal entendia... Ver a dor nos olhos das minhas amigas era... Simplesmente horrível. Ainda mais saber que eu era a causa daquela dor intensa. Pensar em Arthur, só piorava a situação. Eu o amava demais para fazê-lo sofrer tanto ou mais. Era preferível que ele pensasse que eu não o amava mais e se esquecesse de mim de uma vez por todas à vê-lo chorar por mim, vê-lo chorar na beira de meu túmulo.
- Você terminou com ele, dando a desculpa de que havia se interessado por outro, praticamente humilhou o garoto. Tudo para fazê-lo esquecer-se de você. Tudo para que ele seguisse com a vida e simplesmente a apagasse da memória, para que assim ele não sofresse. Mas não adiantou. Ele não acreditou, e virou um verdadeiro inferno quando Carolina contou a ele. E bem no dia que ela contou você piorou e teve de ser internada. A partir de então, poucos foram seus momentos lúcidos.
 Olhei para a porta do quarto e minhas melhores amigas e Arthur entraram. Claro, eles não me viram, aquilo era apenas uma lembrança. Mas por um instante, novamente eu tive a impressão de que ele olhava para mim. Carolina correu até meu corpo, segurando minha mão e chorando intensamente. A dor no olhar de cada um era intensa, e eu quase não aguentava mais olhar para aquela cena, quando um médico entrou no quarto.
- Vocês precisam se despedir dela... Já são 14h50. Só mais dez minutos – e foi então que eu entendi. Eu já estava quase que em um estado vegetativo, e acharam melhor que eu descansasse de uma vez. Quando o médico terminou de falar, o ar do quarto que já estava pesado, pareceu piorar. Era impossível distinguir quem sentia mais dor e quem chorava mais. Os quatro encostaram a mão em mim e fizeram uma reza. Para que eu estivesse sempre com eles, que nunca os abandonasse, que cuidasse sempre deles, como a mãe amiga que eu costumava ser. Que eu nunca os esquecesse, nunca esquecesse o que passamos, e que, acima de tudo, eu descansasse em paz, sem mais problemas na vida.
- Você precisa se despedir de seus amigos, Isabella. Você não pode antes, pois estava perdida, mas agora pode. É a hora. Encoste-se a seu corpo e junte-se à reza. Eles sentirão a força do seu espírito em seus corações, e saberão que onde quer que você vá você estará olhando por eles. Que nunca irá esquecê-los.
 Fiz o que o vulto disse. Era exatamente o que eu queria. Apesar de não querer me despedir, eu tinha que, e já que havia a oportunidade, esse era o melhor a fazer. Juntei-me à reza de meus amigos, e senti como se parte de mim fosse tirada, mas preenchida em seus corações. Todos deram um suspiro pesado, e lágrimas mais carregadas começaram a cair de seus olhos, silenciosamente.
- Nós precisamos ir – o homem-vulto me chamou, e desencostei de meu corpo. Para onde eu precisava ir era uma boa pergunta. – Venha – ele encostou novamente em mim, e lá estávamos novamente na rua em frente à minha escola. Tudo continuava do mesmo jeito que havíamos deixado. – Você escolhe... Você pode ser uma alma perdida pelo mundo, assim como muitas que não aceitam a morte, ou você pode vir comigo... Em paz – ele disse e eu já fui capaz de sentir uma paz preencher meu coração, e tirar todo o peso, dor e confusão que eu sentia.
- Mas... Eu não... Eu não resolvi as coisas com Arthur – eu disse olhando para ele, que continuava apoiado em Carolina, ambos olhando para o nada.
- Você não poderá mais resolver. Não agora... Um dia vocês dois se encontrarão novamente, e finalmente poderão ser felizes, terem a vida que não puderam ter nesta vida. Uma vida feliz, juntos. Você, Arthur e suas amigas. Vocês voltarão a se ver, basta acreditar.
E com esse pensamento positivista, de que em algum momento tudo seria melhor, eu segui o vulto em direção à luz. Enquanto esse momento não chegava, eu estaria de olho em meus amigos.
Fim.



Fic terminada em 18:55 06-12-2010

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