quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O Mistério de Minas

Senti um arrepio frio percorrer meu corpo, de cima a baixo.
“É Minas Gerais, ninguém sabe o que é exatamente, mas ninguém pode negar o que acontece nesse misterioso estado... Só de pensar em minas frias e escuras, fechadas, onde um dia mineiros já trabalharam dia e noite, incansavelmente, procurando o que iria sustentar suas famílias, e quantos morreram de forma deprimente, eu já tenho vontade de sair correndo”.
As palavras da filha de Negra-Mãe ecoavam por minha cabeça. Com certeza fazia total sentindo.
O pior era que os acontecimentos ocorriam de noite, nos piores horários. E cá estou eu, andando por essas malditas estradas esburacadas de mão única, em plena sexta-feira treze, às onze da noite. John, o americano que até mês passado se dizia cético, ao meu lado, estava arrepiado. Não sabia se de frio ou de medo. Talvez dos dois, assim como eu.

Logo no começo do mês, enquanto andávamos em outra estrada, do outro lado do estado, John me apontou uma pequena casa de veraneio, simples, mas com o ar aconchegante e um lampião preso à porta da garagem.
“Não é linda a casinha? Ah, eu poderia ter uma dessas para passar o fim de semana” ele comentara comigo. Eu vira a casinha. Mas quando olhamos para trás, para dar uma última olhada na pequena casa, ela não estava mais lá. John ficou em choque por um bom tempo depois daquilo. Não conseguia acreditar que uma casa sumira assim, do nada. Ficamos um bom tempo discutindo se não tínhamos apenas passado muito rápido por ela, mas nenhum de nós realmente acreditava na hipótese.
Para acabar de vez com seu ceticismo, quando estávamos em São Tomé das Letras, uma cidade conhecida por sua energia misteriosa, John se encantou por alguns magos de enfeite, mas todos tinham o nome de um assassino e traficante, o que fazia John xingar todos os magos e as lojas pelo nome.
Quando ele saiu da última loja, pensando em voltar para outra, que havia apenas um mago de nome diferente, mas não como ele queria, continuou resmungando. Contudo, parou no mesmo instante em que um grande cão preto, parecido com um Dogue Alemão apareceu na esquina de cima da rua, rosnando. Olhando-o estritamente nos olhos. John parou de falar no mesmo instante e congelou no lugar. O cão de pelagem preta e belos olhos castanhos desceu a rua lentamente, ainda rosnando, sem parar de encarar John. Quando o grande animal parou à sua frente, John sussurrou um ‘desculpe-me’; o cachorro deu uma última olhada com seus grandes olhos em John e sumiu pela rua.
Depois de pensar que seria engolido pelo grande cachorro, ele se calou e me disse que acreditava com todas as forças em forças misteriosas. Não posso negar que senti medo por ele, do grande cachorro. Quando o vi na esquina, de início, já pude sentir um estranho arrepio percorrer todo o meu corpo, e apenas de olhar para meu amigo, poderia dizer que ele sentiu o mesmo.

Agora, no carro, depois de conversar com Negra-Mãe, tentando descobrir de onde viera, ou que era essa força misteriosa que envolvia o estado, estávamos sem o que falar. Não obtivemos resposta alguma.
“Não se metam onde os deuses não os chamaram, crianças. As forças e a energia que envolve o estado são algo muito além do que podemos aguentar. É uma história muito antiga, de antes mesmos dos colonizadores chegarem. Tudo começou com as tribos indígenas que aqui viviam. Só posso lhes dizer uma coisa: olhem a Lua e as estrelas. A Lua está quase cheia, o que indica que os eventos vão aumentar de intensidade. E as estrelas... Vocês nunca verão as estrelas de forma tão clara como veem aqui. Algumas pessoas, descendentes dos índios que aqui viviam tem o poder das estrelas. E estão ligadas diretamente a todo esse mistério. Tudo o que posso dizer, é que essa magia é muito maior do que qualquer coisa existente. Mas explicar tudo a vocês, significa envolvê-los nisso... Vocês são jovens, ainda têm muito a viver e o que aprender. Vivam suas vidas, aproveitem. Certas coisas não foram feitas para ser de conhecimento público”.
Depois disso, decidimos que seria melhor voltar para a movimentada São Paulo. Viver nossas vidas. Mas de uma coisa eu tenho certeza: Nunca iria esquecer-me do mistério de minas. Só não sei se queria saber o que é tudo isso, exatamente, agora.
Descendo a estrada, vi um carro descendo do outro lado, na mão contrária. Como as estradas de minas são, em sua maioria, escuras, estava com o farol alto ligado; assim, o diminui, para não atrapalhar quem quer que seja que vinha na outra direção. Comecei então a subida, ficando por 3 segundos sem ver o outro carro. Assim, quando voltei a descer e tive a visão de onde ele antes estava, e de onde provavelmente cruzaríamos... Nada. Escuridão. Nem sinal do carro.
“Onde foi parar aquele carro?” ouvi John, que até o momento estava quieto, dizer.
“Eu não sei...” falei vagamente. Olhei para todos os lados. Apenas mato. Não teria para onde o carro ter ido.
“Quais as possibilidades de termos alucinado juntos?” John me encarou, tenso.
“Quase nulas, eu acho.”
Ouvi John suspirar tensamente e coçar os olhos. Ele parecia querer sair do pesadelo que estava vivendo, e voltar ao seu ceticismo.
“É apenas o Mistério de Minas, caro Johnny. O mistério de Minas... Algo que talvez nunca desvendemos”.

Fim; 18:40 – baseado em fatos reais.

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