quinta-feira, 7 de junho de 2012

underthemoonlight

O bater de asas e gritos das maritacas quebraram o intenso silêncio noturno da mata; os latidos dos cachorros selvagens, que se tornavam uivos aos poucos, enchiam o ar e assustavam os demais animais. A luz da grande lua iluminava as trilhas naturais entre as árvores e revelava os caçadores da noite à espreita, esperando o momento certo para pegar sua presa e alimentar-se, preparando-se para o inverno que vinha.
Em uma clareira da floresta, o crepitar do fogo e as assombrosas sombras que se formavam ao seu redor acordaram o pequeno esquilo que dormia em uma árvore próxima; incomodado, ele apenas subiu alguns galhos, ficando mais próximo do topo e deitou-se de costas, irritado com a luz.
O gato-do-mato que ali passava a procurar por comida, parou ao sentir a intensa fonte de feromônios que lhe avisava que ali havia um predador líder e voltou, então, a seu antigo caminho, sem ao menos pensar em avançar.

Ao lado da fogueira, um homem com uma tanga feita de pele de onça, queimava um pedaço de carne preso a um graveto, que ele tentava fazer com que não pegasse fogo. Abocanhou a comida e saboreou. Apesar de peito não ser uma de suas partes prediletas, sustentava bastante.
Voltou a colocar a carne no fogo. Aprendera a técnica com sua mãe, a única que o havia protegido na tribo. Por ter sido adotado, por não ser um membro puro, já havia passado por momentos que puseram a prova seu limite. Sabiam que ele não era da tribo inimiga, visto que eles tinham tradição de marcar todos os recém-nascidos com pingentes de madeira vermelha no nariz – e ele agradecia por isso –, por isso aceitaram-no lá.
Lembrou-se de quando o chefe da tribo quis pô-lo na fogueira para alimentar as crianças puras com sua energia e vitalidade, em um período de seca. A única coisa que fez com que tal não acontecesse foi o amor de sua mãe, além de ser considerado por poucos o filho da força da água, da pureza, enviado por algum espírito antigo; mas obviamente isso não convencia o chefe, mesmo ele tendo aparecido na beira do rio.
Puxando a costela de seu alimento, ouviu o “crack”, que fez o esquilo que dormia se assustar e fugir. Passou a sugar os vestígios de carne no osso. Escutou um ruído à esquerda e, ao olhar, encontrou um cão selvagem lhe encarando profundamente; encarando sua refeição. Sem pensar, jogou o resto da costela para ele.
Encarou a parte da refeição que se encontrava ao seu lado: tronco. Pensou em sua cabana, onde se encontrava a cabeça, a segunda e mais importante parte; nos braços e as pernas, partes nem tão saborosas, jogados ao rio.
Enfiou a mão direita no tórax e puxou o coração.
Sabia que aquele homem não era de sua tribo, nem da inimiga, por isso poderia comê-lo sem ter que dividir a vitalidade com nenhum ancião.
Segurando com as duas mãos, fincou os afiados dentes na parte mais gordurosa que, em sua opinião, era a melhor, e lhe passava mais força para enfrentar o inverno. Sangue escorreu por entre seus já melados dedos, fazendo com que o cachorro viesse lamber o que quer que pingasse, com o rabo entre as pernas, intimidado pelo cheiro e energia exalados por ele.
Ainda mastigando, pôde sentir toda a energia daquela vida passeando por seu corpo. O que não sabia, entretanto, era que aquele a quem atacara com sua faca e cipós, silenciosamente, era seu conterrâneo. Que enquanto se alimentava de toda sua força e vitalidade, em algum lugar daquele Estado, a ONU brigava para manter duas tribos indígenas sob total isolamento da total sociedade, mesmo sem saber os rituais antropofágicos praticados por eles, e do paradeiro dos últimos turistas desaparecidos na mata da região.
Mordeu mais uma vez o coração, dilacerando-o e deixando cair um pedaço, logo ingerido pelo cão. O vermelho do sangue que escorria brilhou com a luz da lua.
Depois de terminar, jogou o resto do corpo no fogo para não atrair predadores indesejados e voltou para sua cabana, o cão em seu encalço, ambos prontos para a segunda parte da refeição.
As maritacas voltaram a gritar, debandando para outra área da floresta, enquanto os cães uivavam, numa suplica, inquietando toda a mata novamente, até, aos poucos, irem se aquietando e o silêncio mortal voltar a se impor.



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