quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Drowning


Foto por: vanilla-snow



"Se você quiser salvar seus amigos, terá que pegar a resposta nas profundezas."
A voz de som metálico ecoava em minha cabeça; uma frase que me aterrorizou mais do que eu gostaria e adimitir.
Além de meus pais, até onde eu sabia, ninguém mais conhecia o meu pânico, meu bicho papão. Para muitas pessoas, aquilo poderia ser muito bobo, mas não para mim. Não quando você já se afagou. Não quando já se debateu, clamando por ajuda e ar, e tudo o que conseguiu foi encher seus pulmões de água com gosto de cloro.
Eu posso ter sobrevivido, mas uma parte de mim morreu afogada naquele dia. Uma parte de mim criou uma repulsa pela água.
E lá estava eu, de frente a uma piscina extremamente profunda, mais uma vez. A diferença é que dessa vez eu não queria pular e sentir o frescor da água; eu não queria testar minhas habilidades de natação. Dessa vez, eu estava sendo obrigada a entrar lá.
Caminhei por volta da grande piscina, olhando para o fundo e sentindo meu corpo todo tremer de desespero, querendo sair correndo daquele lugar. Mas correr para onde? E largar meus amigos na mão de um maníaco psicopata? Eu não poderia fazer isso. Tinha que jogar e vencer.
Quando cheguei à parte mais funda, mais escura, da piscina, vi algo que se parecia com um folheto vermelho no fundo. Mas eu sabia que não era folheto nenhum, era mais uma senha, uma resposta pra suas charadas, para que eu pudesse passar de nível e chegar cada vez mais perto de ter meus amigos de volta.
Mas, na verdade, tudo o que eu queria saber era: por que eu? Por que meus amigos? O que tínhamos feito para a voz metálica, para sofrermos dessa maneira?
Olhei para a televisão no canto do cômodo e enxerguei minha melhor amiga deitada, o rosto todo machucado. Desacordada após tantos choques. Meus olhos ardiam, sem forças para cuspir mais lágrimas para fora. Senti meu coração na garganta e meu estômago revirando. Não havia mais nada para colocar pra fora, já me sentia desidratada.
Encarando a piscina, por fim, decidi que era a hora. Eu não poderia enrolar por muito mais tempo. Literalmente, era um caso de vida ou morte. Dei alguns passos para trás e respirei fundo. Fechando os olhos, corri e mergulhei.
Nadei em direção ao fundo, mas a piscina era maior do que eu pensava. Continuei indo cada vez mais ao fundo, em direção à chave, à resposta. E quando eu estava quase alcançando, com meus pulmões ardendo, implorando por ar, minha claustrofobia atacando juntamente com meu pânico, me peguei prestes a perder os sentidos. Eu precisava voltar para a superfície. Inclinei o tronco para cima, em direção à superfície, mas um barulho ensurdecedor, mesmo embaixo d'água, chegou aos meus ouvidos e senti uma estranha e forte corrente de água passar por mim. Soltei o resto de ar que havia em meus pulmões, num grito e, em meio às bolhas, água e confusão, eu já não sabia qual era a direção para a superfície. Eu tava girando e, de vez, perdendo os sentidos. Debatia-me, tentando chegar à algum lugar, mas a corrente forte produzida, provavelmente, por alguma bomba da piscina, continuava a me tirar de minha rota. Não enxergava nada, era apenas água para todos os lados, uma imensidão aquática, infinita.
Meu pulmão ardia mais do que nunca, mais do que da última vez, quando eu era pequena. O desespero de precisar de ar e não conseguir, querer gritar e não poder... A falta de oxigênio; cada célula de meu corpo gritando por ele, pedindo desesperadamente, numa súplica. Fui perdendo a força, diminuindo cada movimento, até que, já sem forças, eu não me mexia mais. Tudo o que eu sentia era a sanidade e a consciência deixando meu corpo, e a água o tomando...
A água...
A água...
A água...
Imensidão azul e infinita, me envolvendo em um abraço friamente mortal.
A pior maneira de se morrer... Ciente até o fim... Observando estaticamente, vendo sua vida se esvair e dançar com a corrente.