segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Dark Forest

Olhando fixamente para frente, eu tentava discernir asfalto de céu, céu de árvore e árvore de asfalto, mas tudo o que eu realmente enxergava era a escuridão; o breu total que me abraçava friamente enquanto eu caminhava.
A densa floresta, dos dois lados da estrada, me vigiava e me protegia do forte vento, que fazia os grandes galhos dançarem e fazerem um barulho alto que ecoava por todo o local. Acima de mim, as árvores separadas pelo asfalto se encontravam com seus finos galhos, mas deixavam algum espaço para as estrelas penetrarem. Ou deixariam se houvesse estrela naquela negra noite.
Mesmo com minha pequenina lanterna de pulso, eu não enxergava mais do que cinco metros à minha frente. Os olhos-de-gato no chão me encaravam com seu brilho alaranjado toda vez que a pouca luz alcançava um no chão.
Eu andava em cima das riscas amarelas no chão, como se elas formassem uma corda bamba. Como se fosse a tênue linha entre minha sanidade e minha loucura, e qualquer passo em falso me faria cair na insanidade eterna que dominava o ambiente obscuro.
Tentava prestar atenção apenas nas linhas, sem deixar que minha lanterna alcançasse a floresta ao meu redor, com medo do que poderia encontrar. Olhos negros brilhosos me encarando, meu terror. Mas apesar do meu esforço, cada vez que algum animal se movimentava mais bruscamente por entre as folhas secas, eu me pegava encarando por dentre as árvores, sem saber direito o que esperava encontrar ali.
Na verdade, eu sabia, mas preferia não pensar em tal.
E mesmo evitando o pensamento, no silêncio quebrado apenas por barulhos de grilos e seres noturnos, eu pude sentir o chão sacolejar levemente. Em seguida, um grito e pássaros voando num susto, como quando meu gato Garfield pulou em uma árvore no meio da noite para pegar um esquilo, o que fez com que todos os pássaros saíssem em disparada e quase me atropelassem.
Mas, dessa vez, eu não era a dona do gato e quem vinha não era meu Garfield. Dessa vez, eu era o esquilo e sabia muito bem quem era o gato atrás de mim. Percebi, também, que o que eu ouvira não havia sido um grito e, sim, um pneu cantando na estrada.
Olhando em volta, percebi que não tinha onde me esconder, a floresta era densa demais e eu tinha medo do que poderia encontrar ali. Mas pairava a dúvida: eu tinha mais medo do que poderia encontrar ali ou do que vinha ao meu encontro? Encarando minha linha amarela, percebi que já não havia tempo para mais nada. Institivamente, olhei para trás.
Dois faróis altos me cegaram por alguns instantes e cheguei a pensar que seria atropelada pelo carro que corria em minha direção, mas ele conseguiu frear a tempo. Senti o resto das minhas forças indo embora; não havia mais nada que pudesse ser feito.
Pesadas botinas bateram no chão e o homem grandalhão desceu da caminhonete, desligando o farol para que eu pudesse enxerga-lo com minha lanterninha.
“Você sabe... É uma desfeita muito grande ir embora ao meio do jantar, quando você foi convidado. Meu filho ficou muito triste.”
Fechei os olhos, rezando para que o pesadelo terminasse. Se ele não fosse tão assustador, sua voz seria suave. Ele me pegou no colo e me jogou no banco do passageiro; não resisti, já estava cansada demais para isso. Abri os olhos e encarei meu reflexo no retrovisor. Não, não era eu... O que eu via era uma garota totalmente acabada, que não via banho ao menos há um mês, que rolara em lama e sangue e se machucara em uma rinha de galos. Essa não era eu.
“Mas agora, vamos voltar” ouvi-o dizer, enquanto dava meia-volta com o carro, passando em cima de um olho de gato. Passando em cima da minha fina linha de sanidade, quebrando-a em mil pedacinhos. “É uma desfeita realmente muito, muito, muito grande. Principalmente quando você é o jantar” e lançou um sorriso, mostrando seus pútridos dentes afiados para mim.

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