domingo, 21 de julho de 2013

In The Dark

Estava escuro e pelo canto do olho, pode ver algum tipo de forma se mexendo. Virou-se num pulo, sem saber o que esperar dali. Seus sentidos se aguçaram ao máximo, não era um animal feito para os hábitos noturnos... Sua visão não era como a de animais caçadores de verdade, ele só gostaria que fosse.
Um barulho do alto e seus ombros se encolheram.
Pôde sentir um arrepio subir sua espinha, as pernas sacolejarem, as pupilas se dilatando até tudo ficar preto e branco, sumindo com o azul. As orelhas estariam em pé se mais músculos ali trabalhassem; todos os pelos eriçados, como um felino irritado. Sua boca se contraía em um rosnado mudo.
A escuridão era quase plena, só lhe era possível ver algumas formas se movendo pelo canto do olho, após muito piscar. Mas quando saber até que ponto era a realidade, e até que ponto era sua mente lhe pregando peças?
Esfregando as têmporas, tentando se manter calmo, ele respirou fundo e deu um passo para frente, ainda atento ao lado [que lado?] em que vira o vulto. Tateou em volta e demorou um pouco para encontrar uma parede. Escorando-se na mesma, tentou varrer o lugar com o olhar. Mas estava escuro demais e sua mente já estava começando a trabalhar. Sempre soube que sua imaginação era fértil, mas naquela situação, era ridículo. Era como se ele estivesse pronto para que o polvo gigante e assassino do Stephen King surgisse e lhe engolisse.
Uma risada seca quase lhe saiu pela garganta, mas aquele não era o momento propício. O que quer que estivesse naquele cômodo com ele, não lhe trazia sensações boas. O ar era gelado.
Tateou os bolsos de sua roupa, mas toda a roupa era lisa, parecia que estava usando um roupão. Diabos, ele não se lembrava de como tinha ido parar ali, de absolutamente nada!
Decidiu que era melhor andar e sair dali; o que quer que estivesse naquele lugar lhe trazia arrepios e sua intuição lhe dizia que ali era o último lugar que ele gostaria de estar. Voltando a tatear em volta, foi seguindo a parede, na direção oposta de onde viu o vulto silencioso.
Após alguns metros, sentiu a parede mudar de textura e percebeu se tratar de uma porta. Buscando a fechadura, conseguiu abri-la devagar, ainda com medo de fazer barulho e chamar a atenção do monstro de SK.
Saindo do cômodo, deu de cara uma floresta iluminada apenas pela fraca luz da lua crescente. Olhou para trás para identificar que casa era aquela, mas nada reconheceu. Fechou a porta com cuidado, era melhor trancar qualquer coisa lá dentro. Analisando melhor, montou um quadro em sua mente, para tentar imaginar onde estava.
A casa de alvenaria estava obviamente abandonada havia algum tempo, folhas cobriam toda a frente do local. Uma velha cadeira de balanço abandonada perto da janela rangia e lhe causava mais arrepios. O barulho lhe remetia a alguma coisa, só não conseguia se lembrar do que...
Uma pontada em sua cabeça lhe fez fechar os olhos com força. Parecia que algo não queria que ele se lembrasse de qualquer coisa que aconteceu antes daquilo. Agora sua cabeça latejava, parecia que ele havia tentado fazer algum tipo de comunicação psíquica para aquele nível de dor, não era possível. Quanto mais a cadeira rangia, mais seu cérebro parecia estar sendo esmagado. Com as mãos na cabeça, se afastou. O que quer que aquele barulho lhe lembrasse... Talvez não fosse para ser lembrado.
Voltando-se para a floresta, analisou em volta. O vento e as árvores em misto com a luz da lua criavam bizarras formas pelo chão sujo e barrento. Sua intuição voltou a gritar... Ele precisava se enfiar floresta adentro. Além do mais, que opções tinha? Voltar para aquela casa bizarra com algum monstro Kinguiniano dentro? Ficar na varanda com uma cadeira bizarra até o dia amanhecer? Tudo ao seu redor era floresta. Ninguém criaria uma casa tão a fundo na mata, provavelmente em alguma direção teria uma estrada. Voltando a encarar a lua, pensou em que direção teria uma estrada.
Assim que desceu as escadas da entrada da casa, sentiu um incômodo no pé. Abaixou para ver o que tinha entrado em seu tênis e encontrou um canivete escondido. Analisou-o. Nunca teve um canivete, não que se lembrasse. De um dos lados do material, um símbolo. Na escuridão, era difícil de enxergar, mas eram como flores entrelaçadas formando dois arcos que se cruzavam.
Aquele símbolo reluzindo à luz do luar conseguiu lhe dar mais dor e cabeça do que a porcaria da cadeira maldita. Percebeu duas iniciais também gravadas: "C.P.". Aquilo não era dele... Por um instante, não conseguiu se lembrar de seu próprio nome, mas tinha certeza de que não começava com C.
Seu cérebro estava uma confusão. Tentava colocar as informações no lugar e puxar suas memórias, mas de nada adiantava. Quanto mais ele tentava alcançar suas memórias, mais longe elas pareciam ir, fugindo como lebres. E quanto mais ele corria atrás, mais sua mente entrava em colapso e o seu físico doía.
Ouvindo novamente um barulho vindo de dentro da casa, o mesmo de quando ele se encontrava lá dentro, decidiu que era hora de parar de tentar desvendar os mistérios e simplesmente achar um local seguro - e esse não era o local. Abrindo o canivete, que agora viria a ser útil, seguiu pela frente da casa, em direção à floresta, como a velha lógica diria. Se você tem uma casa na floresta, a chegada de carros da estrada seria pela frente, não?!
Caminhando rapidamente, ele voltou a ouvir barulhos estranhos e mais intensos vindos de dentro da casa; acelerou o passo, quase que numa corrida, e se mete entre as árvores e mato, tentando se guiar pela luz do fraco luar. O vento sacolejava a copa das árvores e o barulho que ecoava pela floresta era intenso; intenso o suficiente para cobrir o barulho que vinha da casa.
Cortando o que quer que atrapalhasse seu caminho e evitando as gigantes teias de aranha, ele seguiu reto à procura da maldita estrada.
Depois de alguns minutos cortando e caminhando, sentiu seus músculos relaxarem um pouco, imaginando já estar longe da maldita casa. Não fazia ideia de onde estava, provavelmente, muito afundo na floresta, e pela densidade da mata, provavelmente nenhum caçador muito grande vivia ali, ele provavelmente conseguiria se virar com um canivete.
Com esse pensamento, suspirou.
Concomitantemente, estalos ecoaram pela floresta, vindos de todos os lados.
Um arrepio voltou a lhe subir a espinha, deixando seus pelos em pé novamente. Talvez houvesse sim algum animal grande por ali.
Voltou a correr, procurando algum local para se esconder, mas nada encontrava. Até que, então, alguns metros depois, viu uma clareira ao longe. Acelerou os pulos e passos em direção ao local e, chegando lá, sentiu o ar escapar de seus pulmões.
Num tranco, parou, encarando a visão da clareira.
Tudo o que ouvia, agora, era o som dos batimentos de seu coração, extremamente acelerados, não só pela corrida, mas também pelo medo que lhe possuiu naquele momento. As pernas voltaram a tremer e o canivete quase lhe escorreu pelos dedos. Um suor frio tomou conta de sua nuca.
Em momento algum ele havia feito curvas e virado 180 graus... Então, como?
Como ele poderia se encontrar, agora, de frente para a mesma casa de alvenaria da qual estivera fugindo há - quem sabe - algumas horas? Literalmente, de frente?
O rangido da cadeira de balanço tomou conta do ambiente, voltando a lhe dar dor de cabeça. Ele havia virado as costas para aquele maldito material e corrido sem parar, sem olhar para trás. Como ele poderia estar agora de frente para isso de novo?
Será que sua imaginação estava lhe pregando peças? Não era possível, não! Ele se lembrava do caminho, não tinha como!
E não era possível que essa fosse outra casa... Estaria alucinando?
Seus olhos baixaram e caíram sobre o canivete.
Só havia uma maneira de descobrir.
Abriu o canivete e levantou a outra mão, aberta, a palma para cima. A lâmina do material refletiu o sorriso da lua crescente, enquanto ele lentamente deslizava o fino corte por sua palma, fazendo uma fita de sangue escorrer em ziguezague até seus pulsos e cair no chão.
Fechou os olhos. O ardor fez com que seu cérebro ignorasse as coisas ao seu redor por um instante, esquecendo o medo que aquela casa lhe trazia. Talvez assim, ele voltasse à realidade.
Abrindo os olhos e guardando o canivete, ele olhou para frente, acreditando que o cenário mudaria... Mas seu coração afundou em pesar.
A cadeira rangeu, o vento trouxe seu cabelo bagunçado para os olhos, incomodando, e estalidos vieram da direção da floresta. Pensou em correr para dentro da casa, quando um baque surdo veio de lá de dentro.
Então, se viu cercado.
Vultos começaram a passar pela janela da casa de alvenaria, ao lado da cadeira que lhe trazia intensas dores de cabeça. Os estalidos ainda lhe arrepiavam e aumentavam seu pavor. Para onde ir? Até que ponto conseguiria sobreviver com apenas suas mãos e um canivete pequeno?
"C.P."...
Tentou fazer a mente funcionar, pegar qualquer fio de memória que lhe tirasse de lá, mas novamente, tudo o que ele sentia era dor. Apertava a palma cortada da mão, tentando desviar o foco da dor para alcançar a memória, mas de nada adiantava, a dor parecia não se distribuir, apenas piorar.
Seu coração disparado fazia o corte sangrar mais ainda. Sua respiração estava falha, respirar fundo parecia doer. Sua visão começou a ficar turva, e a porta da casa começou a tremer intensamente, como se o pequeno monstro Kinguiniano quisesse sair, mas não soubesse usar a fechadura. Os estalidos aumentaram, e estavam cada vez mais perto.
"C.P."...
Para onde ele poderia ir? Correr? Qual lado era menos aterrorizante? Uma casa no breu, com algum tipo de ser sinistro dentro, ou uma floresta densa, mal iluminada e, aparentemente, sem fim?
Até quando o pequeno canivete iria lhe proteger de qualquer coisa bizarra e horrível que pudesse sair de uma casa abandonada e gelada como aquela? Até quando...?

Num pulo, abriu os olhos.
Segurou o grito na garganta, apertou os lençóis.
Olhou ao redor, escuro.
Remexeu-se e ouviu um rangido.
Sua vista demorou a acostumar, mas viu.
E entendeu onde estava... C.P.
Era lá que ele estava, em seu quarto. C.P.
Essa agora era sua casa, por mais terror que isso lhe trouxesse.
C.P.
Clínica Psiquiátrica.

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